«Creio para compreender e compreendo para crer melhor» (Santo Agostinho, Sermão 43, 7, 9) (Santo Agostinho, Sermão 43, 7, 9)

26
Jan 09

A política colombiana, que esta semana receberá dois prémios em Itália, narra a seu percurso e busca religiosa durante o seu cativeiro.

 

Descobri a fé em Deus durante o meu cativeiro. Até então, a minha fé baseava-se no ritualismo: como muitos católicos, ia à Missa, rezava, mas o meu conhecimento de Deus era muito limitado. Quando me encontrava na selva, tive muito tempo e como única leitura a Bíblia. Tive a alegria, durante seis anos, de lê-la, de meditá-la. Se tivesse tido algo de diverso para fazer, tê-lo-ia feito, porque existe sempre preguiça para reflectir sobre o essencial.

 

Provavelmente foi um cativeiro necessário. Ele permitiu-me compreender quem é Deus, de estabelecer uma relação com Ele, com muita admiração, muito amor, mas, sobretudo, compreendendo quem é através da Sua palavra. Para mim não se tratam de palavras ocas mas de uma realidade: lendo a Bíblia, compreendi a essência (N.T. na versão italiana é usada a palavra "carattere" que me parece passível de interpretaçãao errónea se traduzia à letra) de Deus; não se trata de apenas de uma luz, uma energia ou apenas uma força, mas sim da Palavra, alguém que deseja comunicar comigo. Não tive visões, não! Apenas li a Bíblia racionalmente. Fui atingida por todos os fragmentos que me ligaram emocional e interiormente com a palavra de Deus. Ouvi a voz de Deus de um modo assaz humano e muito concreto.

 

Lia e relia algumas passagens dizendo para mim própria «Isto foi escrito para mim!». Havia ouvido durante muito tempo sem compreender e, de repente, foi como se me tivesse ligado à corrente certa. De um momento para o outro, a luz acende-se e entendem-se todas as coisas que não nos eram claras. Uma vez mais, não se tratou de uma experiência mística mas racional, que transformou profundamente a minha vida. Como me modifiquei! O meu tempo de hoje não é o mesmo de anteriormente. Tinha sempre vontade de que as coisas se movessem depressa. Hoje já não me preocupo: sei que tudo ocorre no tempo certo, a minha esperança é portanto mais forte. A passagem pelo cativeiro não fez desaparecer a minha vontade, pelo contrário alterou a natureza da minha esperança. A única resposta à violência é uma resposta de amor.

 

Esta resposta de amor, esta atitude não violenta, para mim, teve origem na fé cristã. Descobri que se pode ser levado a odiar uma pessoa, a odiá-la com todas as forças do nosso ser e, simultaneamente, a encontrar no amor o alívio relativo a este ódio. Não se pode amar alguém que nos faz mal, mas pode-se encontrar, e eu encontrei-o em Cristo, um “lugar” de apoio, como uma pista.

 

Dizia-me a mim própria «por Ti, Senhor, não digo que o detesto». O facto de não me vir à boca esta palavra de ódio era por si só um conforto. Às vezes via chegar um guerrilheiro cruel e assustador, sentava-se diante de mim e eu era capaz de lhe sorrir. O amor é necessário. Iniciei um caminho de perdão, consegui fazê-lo e não apenas aos meus sequestradores. Perdoei também àqueles que eram prisioneiros comigo, com os quais por vezes surgiram momentos de grande dificuldade. Perdoei àqueles meus amigos que não se lembraram de nós, àqueles em quem se tem confiança e que nos desiludem; pessoas que se amava e que disseram coisas horrendas, como, por exemplo, que o cativeiro eu o havia procurado.

 

Hoje acredito profundamente que podemos mudar o mundo, porque eu própria fui transformada, mas neste mundo de domínio e de posses, sei que é no coração de geram as principais transformações fundamentais. A paz, com que sonhamos, será uma realidade no dia em que exista uma atitude diferente nos corações.

 

 

(texto recolhido por Elisabeth Marshall para o hebdomadário francês «La Vie» e publicado a 21 de Janeiro no diário italiano «Avvenire» - tradução de JPR a partir da versão italiana) Ingrid Betancourt

publicado por spedeus às 00:02

«Dá "toda" a glória a Deus. - "Espreme" com a tua vontade, ajudado pela graça, cada uma das tuas acções, para que nelas não fique nada que cheire a humana soberba, a complacência do teu "eu".» São Josemaría Escrivá – Caminho, 784 O ‘Spe Deus’ tem evidentemente um autor que normalmente assina JPR e que caso se justifique poderá assinar com o seu nome próprio, mas como o verdadeiramente importante é Deus na sua forma Trinitária, a Virgem Santíssima, a Igreja Católica e os seus ensinamentos, optou-se pela discrição.
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